Eu sempre fui muito preguiçoso para ler, embora eu goste de ler, mas ano passado, um escritor reavivou em mim o gosto pela leitura, e eu sou grato ao destino por ter me feito escolher justamente este livro primeiro. É que por causa dessa história toda de ano de vestibular e tudo mais, dentre os vários livros da principal lista de leituras para os vestibulares, a lista da FUDEST, eu escolhi justamente 'A Cidade e As Serras' para iniciar as minhas leituras. Está certo que não terminei de ler todos os livros da lista, mas este ano termino, alguns eu não li ainda por preguiça, e pelo mínimo (quase inexistente) interesse que eu tenho de lê-los (como por exemplo 'Memórias de um Sargento de Milícias' e 'Iracema').
O fato é que gostei tanto de Eça De Queirós (autor de o 'A Cidade e As Serras') e do jeito minucioso, da ironia fina, com que ele descreve tudo em sua obra, que um belo dia, andando por um sebo, encontrei todo ensebado de pó 'O Mandarim' de Eça também. Comprei, curioso para conhecer melhor o autor, já que tinha gostado de "Cidade". Quando terminei de ler, decidi que ainda preciso ler todos os livros desse cara! Hoje de manhã, numa aula do cursinho, lemos uma passagem de um livro dele chamado 'Uma Campanha Alegre', e apesar de ser uma análise política e social de Portugal do ano de 1871, eu achei assustadoramente condizente com a realidade brasileira atual. Queria compartilhar aqui com vocês, deem só uma lida e vejam se não concordam comigo:
O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O
desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta
indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha, A indústria enfraquece.
O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um
ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.
De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número das escolas só por si é dramático. O professor tornou-se um empregado de eleições. A população dos campos,
arruinada, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinha e de ervas, trabalhando só para o imposto por meio de uma agricultura decadente, leva uma vida de misérias, entrecortada de penhoras. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião, com padre-nossos maquinais.
Não é uma existência, é uma expiação.
O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O
desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta
indiferença de cima a baixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha, A indústria enfraquece.
O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um
ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.
De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número das escolas só por si é dramático. O professor tornou-se um empregado de eleições. A população dos campos,
arruinada, vivendo em casebres ignóbeis, sustentando-se de sardinha e de ervas, trabalhando só para o imposto por meio de uma agricultura decadente, leva uma vida de misérias, entrecortada de penhoras. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião, com padre-nossos maquinais.
Não é uma existência, é uma expiação.
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Bela crítica não? Eu não vivi em Portugal daquela época (ou vivi, quem sabe) mas já me sinto tão fudido quanto um português consciente e que apóia as idéias de Eça.
É claro que salvo as devidas proporções da época e de alguns problemas, e algumas raras exceções que você mesmo pode ter apontado no texto, essa descrição aí de Eça, não passa de uma previsão do Brasil de 2009. E depois tem gente acreditando em Mãe Diná...
E tem mais, se você ainda tiver saco pra ler, a esta altura do post, dá só uma olhada nos deputados de 1871 em Portugal (e depois vá num UOL ou num Terra, ou na página da Folha de S. Paulo e procure saber sobre o comportamento dos três poderes brasileiros):
O corpo legislativo há muitos anos que não legisla Criado pela intriga, pela pressão administrativa, pela presença de quatro soldados e um senhor alferes, e pelo eleitor a 500 réis, vem apenas a ser uma assembleia muda, sonolenta, ignorante, abanando com a cabeça que sim. Às vezes procura viver; e demonstra então, em provas incessantes, a sua incapacidade orgânica para discutir, para pensar, para criar, para dirigir, para resolver a questão mais rudimentar de administração. Não sai dela uma reforma, uma lei, um princípio, um período eloquente, um dito fino! A deputação é uma espécie de funcionalismo para quem é incapaz de qualquer função. É o emprego dos inúteis.
Por isso o parlamento é uma casa mal alumiada, onde se vai, à uma hora, conversar, escrever cartas particulares, maldizer um pouco, e combinar partidas de whist. O Parlamento é uma sucursal do Grémio. A tribuna é uma prateleira de copos de água intactos.
O ministério, o poder executivo, deixou de ser um poder do Estado. E apenas uma
necessidade do programa constitucional. Está no cartaz, é necessário que apareça na cena.
Não governa, não tem ideia, não tem sistema; nada reforma, nada estabelece; está ali, é o que basta. O País verifica todos os dias que alguns correios andam atrás de algumas carruagens – e fica contente.
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Salve Eça!
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