Ah, o estudo de biológicas serve pra alguma coisa sim. Quando eu estudo bem e guardo alguma coisa (tá bom, decoro pra caralho), descobri que isso pode servir num diálogo aleatório, ao qual no primeiro indício de vazio vocabular e ideológio eu adiciono um conhecimento fantástico de biologia, o qual provavelmente os outros cavalheiros presentes não irão entender, se lembrar que já "aprenderam" isso um dia e de tabela ainda vou ganhar comentários positivos e congratulações acerca de minha inteligência magnânima por revelar por exemplo que cocô não é excreta e nada tem a ver com o sistema excretor.
Mas não estou aqui para falar disso, apesar de, como sempre, me alongar num assunto que não é o principal do post... eu sempre faço isso né? Maldito sou, desculpem-me.
Queria lhes mostrar o que aprendi no meu estudo hoje, conheci um poeta, chamado Affonso Romano de Sant'An
na. O cara é brasileiro, e como todo brasileiro intelectual que viveu os repressivos anos da ditadura, o cara pensa. E não só pensa, como escreve e critica. Escreve muito bem e geralmente critica o Brasil, seja em suas crônicas, poesias, estórias. Claro que isso tudo não estava no exercício que eu estudava, mas um poema dele estava lá e me chamou muito a atenção, a ponto de eu me interessar pelo autor e evocar os favores de nossa maravilhosa ferramenta da modernidade, a bibliotecária do século 21, o Deus da informação, o Google.Antes, uma breve biografia dele, trechos de uma maior no site 'releituras', que eu vou postar aqui só pra vocês saberem de quem se trata:
Nascido em Belo Horizonte (1937), desde os anos 60 teve participação ativa nos movimentos que transformaram a poesia brasileira, interagindo com os grupos de vanguarda e construindo sua própria linguagem e trajetória.
Data desta época sua participação nos movimentos políticos e sociais que marcaram o país. Embora jovem, seu nome já aparece nas principais publicações culturais do país. Por isto, como poeta e cronista foi considerado pela revista “Imprensa”, em 1990, como um dos dez jornalistas que mais influenciam a opinião de seu país.
Como jornalista trabalhou nos principais jornais e revistas do país: Jornal do Brasil (pesquisa e copydesk), Senhor(colaborador) ,Veja(critico), Isto É(Cronista), colaborador do jornal O Estado de São Paulo. Foi cronista d da Manchete e do Jornal do Brasil . e está n'O Globo desde 1988.
Considerado pelo crítico Wilson Martins como o sucessor de Carlos Drummond de Andrade, no sentido de desenvolver uma “linhagem poética” que vem de Gonçalves Dias, Bilac, Bandeira e Drummond, realmente substituiu este último como cronista no “Jornal do Brasil”, em 1984. E foi sobre Carlos Drummond de Andrade a sua tese de doutoramento (UFMJ), intitulada:"Drummond, o gauche no tempo", que mereceu quatro prêmios nacionais.
Nos duros tempos da última ditadura militar, Affonso Romano de Sant'Anna publi
cou corajosos poemas nos principais jornais do país, não nos suplementos literários, mas nas páginas de política . Poemas como “ Que país é este?” (traduzido para o espanhol, inglês, francês e alemão), foram transformados em “posters”, aos milhares, e colocados em escritórios, sindicatos, universidades e bares.Nessa época produziu uma série de poemas para a televisão (Globo). Esses poemas eram transmitidos no horário nobre, no noticiário noturno e atingiam uma audiência de 60 milhões de pessoas.
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Agora, o poema que me chamou a atenção. Também vou postá-lo em fragmentos, pois no que eu quero focar é na atualidade que expressa o poema, apesar de ser de 88, pois ele inteiro pode acabar saindo do eixo em que eu quero apresentá-lo aqui, pois o contexto no qual ele foi escrito foi naquela transição problemática do Brasil, fim de ditadura, redemocratização, inflação (que hoje nem é o maior problema do nosso país da cocada preta mais) e corrupção, muita corrupção (e este sim, ainda é um problema grave de nossa "renovada democracia", de apenas 21 anos, mesma idade dessa corrupção que por mais que seja uma contemporânea de nosso período monárquico, também "renasceu" com a redemocratização, por isso 21 anos). Se quiser ler o poema inteiro, está aqui, mas o que vou postar aqui é ele quase inteiro mesmo. Muito contundente com a nossa situação atual.
Sobre a Atual Vergonha de Ser Brasileiro (Política e Paixão)
Que vergonha, meu Deus! ser brasileiro
e estar crucificado num cruzeiro
erguido num monte de corrupção.
Antes nos matavam de porrada e choque
nas celas da subversão. Agora
nos matam de vergonha e fome
exibindo estatísticas na mão
Estão zombando de mim. Não acredito.
Debocham a viva voz e por escrito.
É abrir jornal, lá vem desgosto.
Cada notícia
- é um vídeo-tapa no rosto.
Cada vez é mais difícil ser brasileiro.
Cada vez é mais difícil ser cavalo
desse Exu perverso
- nesse desgovernado terreiro.
Nunca te vi tamanho abuso.
Estou confuso, obtuso,
com a razão em parafuso:
a honestidade saiu de moda,
a honra caiu de uso.
De hora em hora
a coisa piora:
arruinado o passado,
comprometido o presente,
vai-se o futuro à penhora.
Me lembra antiga história
daquele índio Atahualpa
ante Pizarro - o invasor,
enchendo de ouro a balança
com a ilusão de o seduzir
e conquistar seu amor.
(...)
Este é o país do diz e do desdiz,
onde o dito é desmentido
no mesmo instante em que é dito.
Não há lingüistica e erudito
que apure o sentido inscrito
nesse discurso invertido.

Aqui
o dito é o não-dito
e já ninguém pergunta
se será o Benedito
Aqui
o discurso se trunca:
o sim é não,
o não, talvez,
o talvez,
- nunca.
Eis o sinal dos tempos:
este é o país produtor
que tanto mais produz
tanto mais é devedor.
(...)
Eis uma situação
totalmente pervertida:
- uma nação que é rica
consegue ficar falida,
- o ouro brota em nosso peito,
mas mendigamos com a mão,
- uma nação encarcerada
doa a chave ao carcereiro
para ficar na prisão.
Cada povo tem o governo que merece?
Ou cada povo
tem os ladrões que a enriquece?
Cada povo tem os ricos que o enobrecem?
Ou cada povo tem os pulhas
que o empobrecem?
O fato é que cada vez mais
mais se entristece esse povo
num rosário de contas e promessas,
num sobe e desce
- de pranto e preces
Ce n'est pas un pays sérieux!
já dizia o general.
O que somos afinal?
Um país pererê? folclórico?
tropical? misturando morte
e carnaval?
- Um povo de degradados?
- Filhos de degredados
largados no litoral?
- Um povo-macunaíma
sem caráter nacional?
Ou somos um conto de fardas
um engano fabuloso
narrado a um menino bobo,
- história de chapeuzinho
já na barriga do lobo?
Por que só nos contos de fada
os pobres fracos vencem os ricos ogres?
Por que os ricos dos países pobres
são pobre perto dos ricos
dos países ricos? Por que
os pobres ricos dos países pobres
não se aliam aos pobres dos países pobres
para enfrentar os ricos dos países ricos,
cada vez mais ricos,
mesmo quando investem nos países pobres?
Espelho, espelho meu!
há um país mais perdido que o meu?
Espelho, espelho meu!
há um governo mais omisso que o meu?
Espelho, espelho meu!
há um povo mais passivo que o meu?
E o espelho respondeu
algo que se perdeu
entre o inferno que padeço
e o desencanto do céu.
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Ahh não, por favor, releiam este verso
Cada povo tem o governo que merece?
Ou cada povo
tem os ladrões que a enriquece?
Cada povo tem os ricos que o enobrecem?
Ou cada povo tem os pulhas
que o empobrecem?
Não é possível, esse cara escreveu esse poema ontem, só pode ser...










































